O Corporativismo do Fracasso: Ciúme que atrasa o futebol brasileiro.
(autor: Herbert Drummond)
Gerações de jogadores profissionais, se mantêm em uma espiral descendente de atualização, andando de marcha a ré, eles assistem, impotentes, à invasão de profissionais estrangeiros, técnicos e jogadores — vindos da Europa e da América do Sul — que hoje dominam os principais clubes do nosso próprio campeonato nacional. O pânico de perder o último feudo, a Seleção Brasileira, é o que move essa cruzada do ressentimento.
O boicote a Ancelotti é o sintoma de um futebol que prefere morrer abraçado
ao seu orgulho ferido a aprender com quem está no topo. Se o Brasil continuar
ouvindo o coro dos ressentidos e dos ultrapassados, a Copa de 2002 deixará de
ser o nosso último título para se tornar uma peça de museu de um tempo que não
volta mais. É hora de decidir se queremos continuar sendo o país do "já
ganhou" nostálgico ou se queremos, finalmente, voltar a ser o país do
futebol de ponta.
O Abismo Estatístico
Para ilustrar o tamanho do descompasso histórico e técnico entre Ancelotti e Luxemburgo, vale a pena confrontar
a linha do tempo e as prateleiras de troféus:
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Período / Critério |
Carlo Ancelotti |
Vanderlei Luxemburgo (últimos 20 anos) |
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Século XXI (2001 - Presente) |
Multicampeão Europeu: o único treinador a vencer as
5 grandes ligas europeias (Espanha, Inglaterra, Itália, Alemanha e França) e
o maior vencedor da história da Champions League (5 títulos). |
Espiral Decadente: Acumulou passagens rápidas
por clubes médios e grandes do Brasil, sem relevância internacional e com demissões
frequentes por falta de resultados e defasagem tática. |
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Última Conquista Relevante |
Champions League e La Liga recentes, mantendo-se no topo absoluto do
futebol mundial. |
Estaduais esporádicos e campanhas de meio de tabela. Seu último título
nacional expressivo foi há mais de duas décadas. |
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Domínio do Espaço Doméstico |
Respeitado globalmente pelas maiores estrelas do futebol mundial
(incluindo os próprios craques brasileiros). |
Perdeu espaço no próprio futebol brasileiro para a comissão técnica
estrangeira (portugueses e argentinos) que hoje ditam as táticas no país. |
A rigor, esta discussão há muito deixou de ser apenas sobre o nome de Carlo Ancelotti. O italiano virou o para-raios de um embate civilizatório dentro do nosso esporte. O que está em votação, silenciosamente, é a escolha entre dois modelos irreconciliáveis de gestão: de um lado, o planejamento de ciclos longos, ancorado na estabilidade, noA ironia atinge o ápice quando Vanderlei Luxemburgo surge como porta-voz da resistência. Ele, que de fato teve seu momento de brilho no plano doméstico nos anos 1990, representa justamente o marco inicial do descompasso do futebol brasileiro com a modernidade europeia. Sua passagem pela Seleção, na virada do milênio, foi abreviada não apenas pela perda de rendimento em campo, mas por turbulências extra-campo que arranharam a liturgia do cargo. Ver alguém que foi superado pelo tempo e cujas últimas passagens por grandes clubes foram melancólicas, questionar a estatura de um tetracampeão da Champions League é, no mínimo, um atrevimento histórico. O que fala ali não é o analista que presume ser; é a dor de cotovelo de quem viu o bonde da história passar e hoje precisa gritar para ser lembrado.
Na mesma trincheira, temos Romário. Quem é Romário, para avaliar a competência de Carlo Ancelotti?! Como jogador, o "Baixinho" foi um gênio indiscutível, uma lenda que brilhou no tetracampeonato de 1994. No entanto, o gigantismo do Romário atleta nunca se traduziu em profundidade intelectual ou capacidade de análise esportiva fora das quatro linhas. Romário julga o futebol sob a ótica do talento pessoal e do individualismo — justamente a mentalidade que faliu o futebol coletivo do Brasil nas últimas duas décadas. Suas declarações ácidas contra técnicos estrangeiros, especialmente o italiano, agora, não carregam nenhum embasamento técnico; carregam apenas a marra de quem acredita que o futebol moderno pode ser gerido com a mesma informalidade e o mesmo improviso de trinta anos atrás. Spoiler: não pode. Não merece comentários sérios.
Essa ofensiva conjunta não é uma coincidência; é uma reação coordenada de uma "reserva de mercado" assustada. Trazer Ancelotti significa expor a nudez do nosso mercado de treinadores e analistas. Significa admitir que o "país do futebol" parou no tempo em 2002. Enquanto nossos técnicos locais e, consequentemente, as novas g processo
científico e na blindagem de um projeto de trabalho; do outro, a velha ciranda
do imediatismo histérico, que exige resultados ontem e resolve crises
promovendo demissões sumárias e trocas de comando ao sabor do vento. Sabotar a
vinda de uma grife internacional é a garantia de que continuaremos operando na
lógica do remendo de curto prazo.
A
Mobilização dos Progressistas: Pelo Futuro do Futebol
Para romper essa barreira do atraso, é urgente
que a ala progressista do nosso futebol — composta por torcedores cansados do
mesmo roteiro, dirigentes com visão de futuro, jogadores conscientes e
profissionais de imprensa sérios — se mobilize. E essa mobilização precisa se
encorpar ao redor de vozes que carregam autoridade moral, técnica e histórica
indiscutíveis.
Precisamos do farol de lucidez de um Tostão,
que une a genialidade de quem já foi dono do mundo em campo à precisão cirúrgica
de suas crônicas; da sabedoria pragmática de um Luiz Felipe Scolari, que
conhece como poucos o peso real da camisa amarela e a importância da hierarquia
de um projeto; e do rigor analítico de jornalistas como PVC e André Rizek, que se recusam a trocar o debate tático e estrutural pelo ruído
barato do corporativismo de cabine.
Conclusão:
A Escolha Entre o Futuro e o Museu
E, para que esse pacto da mediocridade
funcione, o corporativismo das múmias profissionais encontra eco perfeito em uma
parcela da imprensa que vive e se promove do fomento ao caos. Os porta-vozes proeminentes, no caso, são Mauro Cezar Pereira, cujo conhecido bairrismo e o hábito de criticar eternamente tudo e
todos funcionam como uma espécie de profissão de fé no mau humor; ou de JucaKfouri, um analista visivelmente fora do seu tempo e espaço, cuja
acidez contumaz contra qualquer novidade nos faz perguntar: quando foi a última
vez que o vimos elogiar sinceramente alguma coisa ou alguém? Juntando-se ao
coro, temos ainda Walter Casagrande — cuja relevância na
análise esportiva evoca a clássica pergunta: "quem é?" Respondo: alguém que construiu sua carreira midiática à sombra do brilho eterno de Sócrates e do
romantismo da "Democracia Corintiana", mas cuja opinião técnica, hoje, goza de raso respeito em seu próprio meio profissional.
Se as forças verdadeiramente progressistas do nosso esporte — inspiradas pela lucidez de figuras respeitadas — não assumirem o protagonismo dessa narrativa contra essa barreira de ressentidos e profetas do apocalipse, a Copa de 2002 deixará definitivamente de ser o nosso último grande título para se tornar uma melancólica peça de museu de um tempo que não volta mais. Torço para que o jovem presidente da CBF faça o que tem de fazer e resista a esse "canto da sereia".
É hora de decidir se queremos continuar reféns do "já ganhou"
nostálgico e do rancor de cabines e redações, ou se temos a coragem de, finalmente,
desenhar e bancar o futuro.
O jornalista escocês Andrew Downie teve o privilégio de testemunhar a alegria do Brasil quando o país venceu a Copa do Mundo pela última vez, em 2002. Àquela época, ele vivia entre Rio de Janeiro e São Paulo e era correspondente de jornais de relevo internacional, como o americano The New York Times, o britânico The Guardian e a agência de notícias Reuters.
Com a mesma honestidade com que admite que a seleção de seu país — a Escócia, derrotada pelo Brasil na fase de grupos — "é ruim", ele afirma que tanto o torcedor quanto o jogador brasileiro deveriam parar de se escorar nas cinco estrelas que ostentam na camisa verde e amarela.
"O brasileiro precisa aprender que não é mais referência. É preciso parar de se gabar de ser pentacampeão, porque isso não importa para a Noruega, o Japão, a Argentina ou para quem quer que esteja jogando contra o Brasil. Eles não têm mais medo do Brasil", diz Downie, por videoconferência, à BBC News Brasil.
Se desejarem, e recomendo àqueles que amam o futebol brasileiro e o querem novamente entre os melhores do planeta, que o leiam clicando aqui. Vale o tempo...


