||| 24 de outubro DE 2026 ||| sábado ||| Dia das Nações Unidas || # Reflexão: "As mais lindas palavras de amor são ditas no silêncio de um olhar". --- Leonardo da Vinci
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Bem vindo
O dia 24 de outubro marca a fundação de um dos mais importantes organismos internacionais, a Organização das Nações Unidas (ONU), criada em 1945 para substituir a antiga Liga das Nações, extinta em razão da Segunda Guerra Mundial. Com o fim do conflito, foi assinada a Carta das Nações Unidas em 26 de junho daquele ano, dando origem à ONU, que começou a atuar em 24 de outubro. A data passou a ser comemorada apenas em 1948. O documento enumerava os objetivos da ONU, entre eles, manter a paz e a segurança em todo o mundo, mediar e promover relações amistosas entre as nações e cooperações na resolução de problemas internacionais, eliminar a pobreza e o analfabetismo, incrementar a sustentabilidade e estimular a promoção do bem social de idosos, crianças, jovens e refugiados. Por ser composta por 193 países, a ONU é considerada uma das maiores organizações internacionais do mundo em número de Estados-membros. Quando foi fundada em 1945, 51 nações assinaram a Carta das Nações Unidas, incluindo o Brasil. Em 2011, o Sudão do Sul tornou-se independente, sendo então, o último país a aderir à ONU. A sede das Nações Unidas fica em Nova Iorque, nos Estados Unidos, embora seja um organismo internacional. A ONU também tem a sede da Europa, instalada em Genebra, na Suíça. A ONU tem em sua estrutura, os seguintes órgãos: Assembleia Geral, Conselho de Segurança, Conselho Econômico e Social, Conselho de Tutela (suspenso em 1994 por tempo indeterminado) e Corte Internacional de Justiça e o Secretariado Geral.
pensamento dia
Frase
Albert Einstein (Ulm, 14 de março de 1879 – Princeton, 18 de abril de 1955) foi um físico teórico alemão que desenvolveu a teoria da relatividade geral, um dos pilares da física moderna ao lado da mecânica quântica. Embora mais conhecido por sua fórmula de equivalência massa–energia, E = mc² — que foi chamada de "a equação mais famosa do mundo" —, foi laureado com o Prêmio Nobel de Física de 1921 "por suas contribuições à física teórica" e, especialmente, por sua descoberta da lei do efeito fotoelétrico, que foi fundamental no estabelecimento da teoria quântica. Investigou as propriedades térmicas da luz, o que lançou as bases da teoria dos fótons. Em 1917, aplicou a teoria da relatividade geral para modelar a estrutura do universo como um todo. Suas obras renderam-lhe o status de celebridade mundial enquanto tornava-se uma nova figura na história da humanidade, recebendo prêmios internacionais e sendo convidado de chefes de estado e autoridades. Foi professor da Academia de Ciências de Berlim. Em 1933, quando o Partido Nazista chegou ao poder na Alemanha, estava nos Estados Unidos, onde passou a morar. Desde então, não tornou a residir no seu país de origem. Naturalizou-se estadunidense em 1940. Em agosto de 1939, pouco antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial, ajudou a alertar o presidente Franklin D. Roosevelt que a Alemanha poderia estar desenvolvendo uma arma atômica, recomendando aos norte-americanos começarem uma pesquisa semelhante, que se tornaria o Projeto Manhattan. Apoiou os Aliados, opondo-se, no entanto, à utilização de armas nucleares contra o Japão. Mais tarde, com o filósofo britânico Bertrand Russell, assinou o Manifesto Russell-Einstein, que destacou o perigo das armas nucleares. Foi afiliado ao Instituto de Estudos Avançados de Princeton, onde trabalhou até sua morte em 1955. {https://pt.wikipedia.org/wiki/Albert_Einstein}
Tenho, continuamente, refletido sobre as próximas eleições e sobre o que gostaria de compartilhar com os leitores e amigos da Oficina de Gerência. Acho que devo isto ao blog.
Em meus círculos sociais e profissionais e até familiares, sempre fui discreto quanto às minhas preferências eleitorais. Há, porém, uma convicção que desejo tornar pública: meu compromisso com a democracia.
É ela que permite escolher governantes, cobrar resultados, denunciar injustiças e substituir, pelo voto, aqueles que perderam nossa confiança. Sua preservação é o fundamento que dá sentido às demais escolhas políticas e cobranças aos eleitos.
Nenhum candidato está acima da crítica e do julgamento dos cidadãos; nenhum partido merece fidelidade incondicional. Quem governa, quem legisla e quem julga, deve prestar contas, respeitar as liberdades e reconhecer os limites de seu poder. Quem perde uma eleição deve respeitar o resultado legítimo das urnas. Esses compromissos são sagrados e valem para todos.
Também considero essencial preservar o direito à divergência. Familiares, amigos e conhecidos não precisam votar como alguém, para merecer o seu respeito. A convivência democrática exige que reconheçamos, no outro, a mesma liberdade de consciência que reivindicamos para nós.
Minha escolha eleitoral será feita à luz desses princípios, com atenção à capacidade de governar, às condições de vida da população e à responsabilidade com o futuro do país.
Preservo, neste momento, a discrição sobre meu voto. Deixo explícito, contudo, o critério que mais pesa na minha decisão: o respeito e a preservação da democracia.
É com essa convicção que irei às urnas e, com ela, continuarei a avaliar quem receber a responsabilidade de governar.
Uma eleição não movimenta apenas as urnas: mexe com nossas emoções, nossos receios e nossas relações. Muitos de nós saem do eixo.
Nesta reta final da disputa, tenho ouvido e percebido, entre amigos e familiares, relatos de ansiedade e angústia que merecem ser ouvidos com respeito.
Acredito nesse sofrimento e penso que ele não deve ser tratado como exagero ou fraqueza. As "vítimas" desses “sintomas de ansiedade e estresse associados ao contexto eleitoral” sentem, verdadeiramente, algo diferente nos seus comportamentos corriqueiros sem conseguir explicar-se: um certo desânimo incompreensível, insônia sem motivo, obsessão em acompanhar o noticiário eleitoral...
A reportagem da Folha de S. Paulo, que compartilho a seguir, aborda esse lado humano do acirramento eleitoral. É uma leitura oportuna para refletirmos sobre os limites entre o envolvimento político e o desgaste que compromete o descanso, a convivência e a vida cotidiana.
Defender nossas convicções é parte da democracia. Cuidar de nós mesmos e respeitar o sofrimento do outro também precisa fazer parte dessa experiência.
A poucos dias do segundo turno das eleições, a estagiária de psicologia Larissa Santos, 29, quase não pegou no sono. "Fui dormir às 2h30. Meu marido disse que eu ia surtar", conta. O motivo? Imaginar o que poderia acontecer se o candidato do campo político oposto ao seu vencesse a disputa presidencial.
"Eu estou mais ansiosa, minha produtividade no trabalho caiu drasticamente e todo esse contexto tem afetado minhas relações pessoais", afirma.
É a disputa presidencial entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) que aparece no centro das preocupações de muitos eleitores. Após o primeiro turno, Flávio saiu à frente com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula somou 45,16% — diferença de apenas 1,87 ponto percentual.
A decisão será tomada neste domingo (25), quando os brasileiros vão às urnas escolher o presidente da República para os próximos quatro anos. Em seis estados — Acre, Amazonas, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte e Tocantins — e no Distrito Federal, a população também vai definir seus governadores.
Flávio Bolsonaro e Lula durante o debate no estúdio da Band (Grupo Bandeirantes de Comunicação), em São Paulo - Eduardo Knapp - 18.out.26/Folhapress
Nas redes sociais, o debate sobre propostas e programas de governo se mistura a previsões de catástrofes, ataques a adversários e mensagens que apresentam a vitória de um candidato como uma ameaça à própria vida cotidiana. E ganhou até nome entre os internautas: psicose política — termo que não existe no léxico clínico.
A preocupação com o resultado eleitoral, por si só, não representa um problema de saúde mental, segundo especialistas ouvidos pela Folha. O sinal de alerta aparece quando o assunto passa a dominar os pensamentos, provoca sofrimento intenso e persistente e prejudica atividades cotidianas.
"Na psicologia, chamamos de ruminação mental. O indivíduo permanece mentalmente ocupado com o mesmo assunto, mesmo quando gostaria de se concentrar em outras atividades", explica o psiquiatra Arthur Danila, coordenador do programa de mudança de hábito e estilo de vida do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo).
Os sinais de alerta podem aparecer em diferentes áreas da vida. Dificuldade para adormecer, despertar durante a madrugada para consultar notícias, irritabilidade, tensão muscular, dores de cabeça, desconfortos gastrointestinais, palpitações, fadiga e alterações do apetite são algumas das manifestações que podem acompanhar o estresse.
"Um sinal de alerta é quando a pessoa já não consegue escolher quando se envolver com a política e quando se desligar dela. O assunto passa a dominar seus pensamentos, suas emoções e seu comportamento, mesmo nos momentos destinados ao trabalho, à convivência e ao descanso", diz Danila.
Esses sintomas não são exclusivos da ansiedade eleitoral e não permitem, isoladamente, concluir que alguém tenha um transtorno mental. Além de intensidade, duração e impacto, é necessário observar fatores pessoais, familiares, profissionais e sociais, além de quadros psicológicos pré-existentes.
"Se houver prejuízo importante no cotidiano ou agravamento de uma condição psiquiátrica, é recomendável procurar avaliação profissional", afirma Danila. Segundo ele, a indicação de medicamentos depende de uma avaliação clínica individualizada.
O tratamento começa com uma avaliação. O profissional investiga os sintomas, histórico de saúde mental e estratégias que a pessoa utiliza para lidar com o estresse.
Conheça o artigo no formato original (clique aqui)
Abro este comentário na série, sob o selo “Eleições”, com um vídeo curto da apresentadora Sandra Annenberg, publicado no YouTube. Identifiquei-me com o sentimento que ela expressa diante do ato de votar. Seu depoimento me levou a olhar esse momento com mais atenção.
A rotina de um dia de votação pode nos fazer esquecer o significado do que estamos fazendo. Chega o dia, saímos de casa, vamos à seção eleitoral, cumprimos os procedimentos e entramos na cabine. Alguns minutos depois, está feito. Voltamos aos nossos compromissos e, mais tarde, acompanhamos a apuração.
Para alguns, é uma obrigação cumprida. Para outros, um momento de emoções: esperança ou desilusão, preocupação ou tranquilidade, entusiasmo ou desânimo. Contudo, aquela breve passagem pela cabine merece mais do que a pressa de encerrar uma tarefa.
É ali, a sós na cabine, que cada um de nós participa da escolha de quem receberá poder para tomar decisões que alcançarão milhões de brasileiros, inclusive nós mesmos. Decisões cujos efeitos poderão permanecer muito além de uma campanha ou de um mandato.
“Sempre que eu voto, fico muito emocionada”, diz Sandra Annenberg. Ao recordar sua primeira eleição e destacar a igualdade no peso dos votos, ela nos convida a perceber o significado daquele instante na cabine.
Essa igualdade merece uma pausa: pessoas com vidas, rendas, escolaridades e posições sociais muito diferentes têm, na urna, o mesmo peso na escolha. Nenhum cargo, fortuna ou prestígio faz um voto valer mais que outro.
Talvez seja essa a emoção que a rotina às vezes encobre. Por alguns minutos, estamos diante de uma escolha individual que se somará às de milhões de brasileiros. O gesto é simples; a responsabilidade que ele carrega é enorme.
Foi essa dimensão do voto que o vídeo me fez recordar.
Às vésperas de uma nova votação, considero oportuno fazer essa pausa. Não vou dizer a quem lê estas linhas que deve votar assim ou assado. Defendo, sim, que a escolha seja feita com consciência, pensada com calma e, tanto quanto possível, livre das pressões e dos exageros das campanhas.
Isso exige algum trabalho: examinar propostas, observar trajetórias, avaliar preparo e distinguir promessas de possibilidades reais. Exige também disposição para questionar informações que parecem convincentes apenas porque confirmam aquilo em que já acreditamos. É uma pedreira, reconheço, sobretudo quando precisamos colocar nossas próprias certezas à prova.
Não precisamos abandonar nossos sentimentos para votar. Precisamos evitar que eles decidam tudo sozinhos. A simpatia por um candidato não dispensa a avaliação de sua capacidade; a rejeição a outro não garante a qualidade da alternativa.
Também não podemos exigir de nós mesmos a certeza de que jamais nos arrependeremos. Nenhum eleitor controla o futuro ou a conduta de quem elege. Podemos, porém, buscar informações confiáveis para conhecer melhor aqueles a quem pretendemos entregar essa responsabilidade.
Podemos chegar à cabine sabendo que procuramos compreender as opções disponíveis e fizemos uma escolha ponderada. Seria pedir demais a cada um de nós? Diante da importância do voto, não creio.
Que o voto expresse aquilo que consideramos melhor para nós e nossas famílias, mas que nosso olhar alcance também quem vive em condições diferentes das nossas. Afinal, o país que ajudamos a construir será compartilhado com todos.
E que, depois da eleição, continuemos atentos. A responsabilidade do cidadão permanece: acompanhar, cobrar e reconhecer os acertos e os erros de quem recebeu o nosso voto, além de reavaliar nossas próprias escolhas.
Afinal, a consciência que levamos à cabine precisa voltar para casa conosco.
O link abaixo é da Justiça Eleitoral. Trata-se de uma série de dezenove vídeos curtos, com menos de 60 segundos, cada um, com esclarecimentos oficiais para tirar dúvidas sobre como votar, no dia da eleição. É uma playlist, ou seja, se clicar no primeiro, os seguintes vão se sucedendo automaticamente.
Resolvi trazê-los, como parte dessa série aqui no blog, visto que o noticiário após o primeiro turno deu conta de muitos eleitores que deixaram de votar, erraram endereços das suas seções e até mesmo erraram no ato de votar, por falta de melhores informações. Os vídeos têm títulos como:
Vou iniciar uma série de artigos sobre eleições na Oficina de Gerência. É uma decisão que amadureci depois de muito refletir e que modifica uma orientação estabelecida por mim: manter o blog à distância dos debates políticos, sobretudo dos embates partidários.
Ao longo destes dezenove anos, de 2007 a 2026, preferi compartilhar experiências, cultura, valores e reflexões sobre a arte de conduzir a vida. Agora, como cidadão comum, vejo riscos para o futuro do Brasil que, em consciência, considero necessário abordar. Não quero me omitir.
Inquieta-me perceber como as paixões de uma eleição podem conduzir multidões e comprometer escolhas cujas consequências atravessam gerações. É uma preocupação que pretendo desenvolver nos próximos artigos desta série, expondo os fatos e os argumentos que sustentam minha posição.
Recordo aqui a conhecida reflexão do pastor luterano alemão Martin Niemöller sobre o silêncio diante da perseguição nazista. É em sua advertência sobre a omissão que encontro a motivação para a responsabilidade de me manifestar.
Minha visão pode ser contestada; ainda assim, meus 80 anos de vida, vivência e experiência me levam a considerar que devo participar desse debate com os recursos de que disponho. Essa experiência ajuda a formar meu julgamento; não me torna imune ao erro.
Durante a série, não pretendo transformar a Oficina em um espaço de campanha nem dizer ao leitor em quem deve votar. Mas deixarei clara minha posição e apresentarei as razões que orientam a escolha que farei nas urnas, no dia 25 de outubro.
Tomo essa decisão por responsabilidade com minha terra, minha família, minha crença e os valores que orientam minha caminhada neste plano. Quero contribuir para o futuro que desejo legar aos meus filhos e netos, sem perder de vista que esse futuro será compartilhado com toda a sociedade brasileira. Considero essa participação a coisa certa a fazer.
Não reivindico o monopólio da razão. Respeito quem discorda e pretendo que a Oficina de Gerência continue sendo um espaço onde posições diferentes possam conviver e ser discutidas com argumentos. A firmeza de uma convicção não dispensa a disposição para ouvir, reconsiderar e corrigir.
Os artigos estarão sempre identificados pelo selo “Eleições — Opinião do editor”(apresentado na abertura do post). Assumirei a responsabilidade pelo que escrever, com o compromisso de conferir os fatos, indicar fontes e distinguir informação de opinião.
Sei que essa decisão poderá provocar discordâncias. Espero enfrentá-las com o mesmo respeito que peço aos leitores. Nesta quadra da minha vida, considero importante usar este espaço para dizer o que penso e explicar por quê.
Ao longo de seus 19 anos, de 2007 a 2026, a
Oficina de Gerência tem preservado uma linha editorial que evita a política
partidária e procura tratar temas controversos com espaço para reflexão e
diálogo.
Entendo a Oficina como um lugar de reflexão
sobre a arte de conduzir — o trabalho, as relações e a própria vida. A gerência
é sua porta de entrada, mas seu olhar alcança muito além dela: experiência,
cultura e reflexão para conduzir melhor a vida.
Por que faço essa apresentação? Porque este comentário poderá provocar reações de um lado, do outro ou de ambos. Entretanto, sinto-me no dever de não me omitir diante das falhas na condução da vida pública que, a meu ver, vêm marcando este processo eleitoral e repercutindo em todas as camadas da sociedade.
Escrevo como cidadão que procura compreender o
exercício da autoridade e suas consequências. Fiz minha escolha, vou publicar:
Quando a
autoridade perde o rumo
Acompanhar a vida pública tem exigido
resistência ao espanto. Minha inquietação cresce quando o debate sobre
propostas cede espaço aos confrontos pessoais e às disputas entre autoridades.
Decisões e resoluções passam a ser recebidas como ataques, vitórias ou
retaliações. A pergunta sobre quem venceu sufoca outra: o que isso representa
para o país?
Na minha experiência de gestão, aprendi que
ocupar um cargo não assegura capacidade de liderança. Liderar exige
discernimento, responsabilidade e disposição para aceitar limites, corrigir
erros e responder pelas próprias escolhas.
Se cada recuo é humilhação e cada crítica é
afronta, a instituição corre o risco de ficar subordinada ao orgulho de quem a
representa.
A política mobiliza esperança, medo e
indignação. O problema começa quando essas emoções determinam quais regras
merecem respeito. Aceitamos dos aliados aquilo que condenamos nos adversários?
Defendemos a autonomia institucional somente quando suas decisões nos
favorecem?
Nesse uso conveniente dos princípios, reconheço
o vale-tudo. Autoridades têm deveres que ultrapassam preferências e
ressentimentos. Quando empregam o poder para alimentar disputas, desgastam
também as instituições pelas quais deveriam responder.
A democracia exige respeito às regras,
fiscalização do poder, possibilidade de alternância e reconhecimento da
legitimidade dos adversários. Esses compromissos são postos à prova justamente
quando nos contrariam.
A polarização exacerbada leva esse conflito para dentro de
casa e dos círculos de amizade. Quando a discordância política se transforma em
hostilidade e ódio, familiares se afastam, amizades se rompem e conversar passa
a significar confrontar. Podemos sustentar convicções firmes sem reduzir uma
pessoa ao voto que ela declara. Preservar essa capacidade de convivência também
é uma responsabilidade democrática.
A
informação como campo de batalha
O cidadão tenta compreender os acontecimentos
em meio à competição por sua atenção e adesão. Essa disputa atravessa grandes
veículos, mídias progressistas ou conservadoras, influenciadores e campanhas.
Nenhuma dessas identidades assegura compromisso com a verdade.
A desinformação inclui mentiras, mas também
omissões decisivas, imagens fora de contexto e manchetes que sugerem conclusões
não sustentadas pela reportagem.
Quando um veículo exalta determinada conduta e
condena outra semelhante conforme seu protagonista, precisa explicar a
diferença de critérios. Sem isso, compromete sua credibilidade.
Campanhas que exploram falsidades,
acontecimentos fabricados, medos e convicções religiosas merecem a mesma
fiscalização. A fé participa legitimamente da vida pública; sua exploração para
tornar um candidato imune à crítica precisa ser questionada.
Essa vulnerabilidade não se limita à falta de
instrução. Pessoas escolarizadas também acreditam em versões convenientes.
Todos precisamos verificar aquilo que confirma nossas preferências.
Um pacto
necessário — mas conduzido por quem?
As urnas produzirão um resultado. Não
resolverão automaticamente os conflitos, as dúvidas sobre condutas públicas ou
o desgaste da confiança.
Considero necessário um debate nacional sobre
esta experiência eleitoral: um esforço de concertação que estabeleça
compromissos sobre limites da autoridade, transparência e responsabilidade na
comunicação.
Mas conheço a facilidade de propor soluções
ideais e inviáveis. Quem convocará esse pacto? Quem aceitará ceder? Como
acompanhar seu cumprimento?
Seriam necessárias lideranças públicas e
privadas e organizações de alcance nacional capazes de reunir pessoas que
discordam profundamente. Tenho dificuldade em identificar lideranças com
credibilidade entre campos diferentes para essa tarefa.
Um começo verificável seria cobrar
compromissos específicos: corrigir informações falsas, explicar decisões,
prestar contas e aplicar aos aliados os critérios exigidos dos adversários.
Procuro transformar minha indignação em
reflexão sobre os graves sinais de má administração, má gestão e má gerência na
vida pública. Essa discussão precisa alcançar também nossas próprias
convicções.
As urnas encerrarão a eleição. Superar a crise
exigirá lideranças que demonstrem, em falas, atos, capacidade de exercer autoridade
com responsabilidade e de governar, com inteligência emocional, um país dividido.
Este artigo contou com apoio do ChatGPT na elaboração e revisão do texto e na criação das ilustrações.
A cada grande invenção impactante, a humanidade repete um ritual: primeiro se espanta, depois imagina os perigos e, aos poucos, aprende a conviver com a novidade. Não foi diferente com o avião de Santos Dumont; mais recentemente, vimos algo semelhante com os drones. Os russos já criaram os drones a jato!
A inteligência artificial, porém, nos coloca diante de uma pergunta particularmente íntima:
Até onde estamos dispostos a entregar a uma tecnologia a condução de tarefas da nossa própria vida?
A reportagem (New York Times/Folha de São Paulo) que compartilho a seguir oferece um retrato intrigante dessa pergunta. Durante duas semanas, o jornalista Eli Tan experimentou um agente de IA da Meta capaz de fazer ligações, organizar informações e tomar providências a seu pedido. O resultado o impressionou. Mas, para obter tamanha ajuda, precisou abrir ao agente as portas de seu e-mail, de suas contas e de parte de sua rotina.
Leio essa experiência sem vontade de anunciar uma catástrofe nem de aplaudir a novidade de olhos fechados. Sinto curiosidade, fascínio e orgulho do que a inteligência humana consegue criar; sinto também o peso das perguntas que vêm com essa criação. Talvez este seja o verdadeiro desafio do nosso tempo: aprender a usar instrumentos cada vez mais poderosos e surpreendentes sem abrir mão do nosso discernimento sobre o que podemos confiar a eles?
O futuro da IA ainda guarda mistérios, mas não precisamos esperar por todas as respostas para começar a fazer boas perguntas. Que tarefas queremos confiar a esses agentes? Que informações estamos dispostos a compartilhar? E, sobretudo, como garantir que a decisão final continue sendo nossa? É com esse espírito — aberto às possibilidades e atento às consequências — que convido você a ler a experiência relatada a seguir.
O vídeo abaixo está integrado à matéria, na Folha. É uma entrevista interessantíssima, com o colunista da FSP, Ronaldo Lemos, especialista em IA. É longa — 53:23 — mas vale a pena. Um aprendizado.
Como é que é? | Quais são os limites para o uso da inteligência artificial?
"Cerca de 47,4% de todo o tráfego na internet hoje é gerado por robôs. Desse universo, 30% são robôs maliciosos, atuando com a intenção de copiar informações ou fazer ataques. Vários são capazes de imitar o humano, se tornando indetectáveis.
Para discutir quais são os limites para o uso da inteligência artificial, Priscila Camazano recebe o colunista Ronaldo Lemos." (Texto do YouTube)
Eli Tan
São Francisco (Califórnia)|The New York TimesNa semana passada, atendi a uma ligação de um número desconhecido. "Consegui falar com a Anthem Dental e estou prestes a transferir a ligação para você", anunciou uma voz.
A chamada vinha de um "agente" de inteligência artificial criado pela Meta, dona do Facebook e do Instagram. Dez minutos antes, o agente de IA havia ligado para a minha operadora de plano odontológico, informado meu número de beneficiário, respondido a uma pergunta de segurança e aguardado na linha antes de me transferir para o atendente — exatamente como eu havia pedido.
Fiquei surpreso com o quanto o agente havia facilitado a interação com a seguradora. Essa foi uma das muitas tarefas que realizei com o Muse, o aplicativo de agente de IA que a Meta apresentou neste mês.
Ilustração que mostra o logotipo da Meta Muse, um teclado e uma mão robótica-Dado Ruvic - 23.set.2026/Reuters
O Muse é o primeiro agente de IA voltado ao consumidor, desenvolvido por uma grande empresa de tecnologia, a se tornar disponível ao público. O setor de tecnologia vê os agentes como a próxima fronteira, muito mais capazes do que os chatbots. Eles podem navegar pela internet, entrar em sites, preencher planilhas e fazer ligações em nome das pessoas — e isso é apenas o começo...
Clique neste ponto e continue a leitura na FSP, se for assinante. Caso não o seja, pode acionar esse link e lerá a mesma matéria, no Infomoney É um texto longo, mas, para quem tenha interesse em conhecer o mundo das IAs, vale o esforço.
Conselhos de Polônio a Laertes: uma despedida que continua a nos ensinar
Quando conheci Hamlet, uma passagem breve me conquistou de imediato. Não era uma das grandes cenas pelas quais a tragédia é lembrada. Era uma despedida: Laertes se preparava para voltar à França, Ofélia conversava com o irmão e o pai dos dois, Polônio, entrava para apressar a partida.
O navio esperava. Talvez por isso Polônio tenha dito tanto em tão pouco tempo. Em vez de um longo discurso de despedida, entregou ao filho uma pequena bagagem de conselhos sobre amizade, prudência, conflitos, dinheiro e integridade.
Voltei a essa cena dezenas de vezes. Levei-a também para fora do livro: conversei sobre ela com meus filhos, com amigos e com pessoas com quem trabalhei. Reconheço em Polônio um desejo que muitos pais conhecem bem: oferecer ao filho alguma orientação para os momentos em que ele terá de decidir sozinho — quando sair para a vida e tiver de enfrentá-la longe de nossos olhos.
Há algum tempo, compartilhei mais de uma vez essa passagem aqui na Oficina de Gerência. Ela continua encontrando leitores, e eu continuo encontrando nela motivos para pensar. Resolvi revisitá-la em reconhecimento ao interesse constante dos leitores do blog.
Desta vez, depois da cena, quero conversar pela primeira vez no post sobre o que esses conselhos podem significar em nossos dias.
Antes do texto, deixo o vídeo da cena. O áudio está em inglês, mas ajuda a perceber o ritmo e a urgência daquela despedida. Em seguida, vem a tradução de Millôr Fernandes, cuja vivacidade é parte do encanto desta leitura.
Polônio aconselha Laertes
Trecho de Hamlet, ato I, cena 3, de William Shakespeare, na tradução do grande Millôr Fernandes.
LAERTES: Não se preocupe comigo. Mas já me demorei muito. E aí vem meu pai. (Entra Polônio.) Uma dupla bênção é uma dupla graça. Feliz por despedir-me duas vezes.
POLÔNIO: Ainda aqui, Laertes! Já devia estar no navio, que diabo! O vento já sopra na proa de teu barco; Só esperam por ti. Vai, com a minha bênção, vai! (Põe a mão na cabeça de Laertes.) E trata de guardar estes poucos preceitos:
Não dá voz ao que pensares, nem transforma em ação um pensamento tolo.
Sejas amistoso, sim, jamais vulgar.
Os amigos que tenhas, já postos à prova, prende-os na tua alma com grampos de aço;
Mas não caleja a mão festejando qualquer galinho implume mal saído do ovo.
Procura não entrar em nenhuma briga; mas, entrando, encurrala o medo no inimigo.
Presta o ouvido a muitos, tua voz a poucos.
Acolhe a opinião de todos – mas você decide.
Usa roupas tão caras quanto tua bolsa permitir, mas nada de extravagâncias – ricas, mas não pomposas.
O hábito revela o homem, e, na França, as pessoas de poder ou posição se mostram distintas e generosas pelas roupas que vestem.
Não empreste nem peça emprestado: quem empresta perde o amigo e o dinheiro; quem pede emprestado já perdeu o controle de sua economia.
E, sobretudo, isto: sê fiel a ti mesmo.
Jamais serás falso pra ninguém.
Adeus. Que minha bênção faça estes conselhos frutificarem em ti.
LAERTES: Com toda a humildade, eu me despeço, pai.
POLÔNIO: Vai – que o tempo foge. Teus criados esperam.
Os conselhos de Polônio, lidos hoje
Polônio começa recomendando uma pausa entre o pensamento, a palavra e a ação. É um conselho simples, mas exigente. Quantas vezes uma frase dita no calor do momento cria um problema que poderia ter sido evitado? Hoje, essa pausa é ainda mais necessária: uma mensagem enviada em segundos pode chegar a muita gente e permanecer circulando muito depois que a irritação passou. Prudência, contudo, não é calar por conveniência. É pensar bem para falar com clareza quando a palavra for necessária.
Em seguida, ele aconselha o filho a ser amistoso sem perder a medida. Gosto dessa distinção. Podemos acolher as pessoas, cultivar a conversa e demonstrar afeto sem transformar toda aproximação em intimidade. Na vida pessoal e no trabalho, os limites bem compreendidos ajudam a preservar as relações. É uma habilidade reservada a poucos.
É nesse espírito que leio os conselhos sobre amizade. Polônio pede a Laertes que guarde junto de si os amigos que já passaram pela prova do tempo, mas que não trate cada novo conhecido como um amigo íntimo. Ele não condena as amizades novas; lembra que confiança se constrói. Quem administrou equipes sabe como isso é verdadeiro: contatos podem surgir depressa, mas é na convivência, sobretudo nas horas difíceis, que conhecemos o valor de uma relação.
Quando fala das brigas, Polônio começa pelo que considero essencial: não procurá-las. O conselho vale hoje para a família, para as redes sociais e para o mundo corporativo. Nem toda provocação merece resposta. Mas há situações em que recuar significa abandonar um princípio ou deixar alguém desprotegido. Nesses casos, enfrentar o conflito com firmeza é diferente de cultivá-lo. Talvez seja essa a leitura que eu faria hoje, sem tomar ao pé da letra a linguagem combativa do pai de Laertes.
Depois vem uma lição que sempre me interessou como gestor: ouvir muito, falar com critério e decidir por conta própria. Escutar não é transferir a responsabilidade da decisão. É reunir perspectivas que talvez não tivéssemos considerado. Um dirigente que só ouve a própria voz perde informações; um dirigente que nunca decide deixa os outros sem rumo. Entre esses extremos, há o trabalho difícil da boa gerência.
Os conselhos sobre a roupa pertencem visivelmente a outro tempo. Na sociedade retratada por Shakespeare, a aparência sinalizava posição e reconhecimento. Ainda hoje, a forma como nos apresentamos comunica algo, e convém respeitar as circunstâncias e as pessoas com quem convivemos. Mas eu não confundiria boa apresentação com valor pessoal. A roupa pode abrir uma primeira conversa; são as atitudes que sustentam a impressão que deixamos.
A recomendação sobre empréstimos também pede cuidado. Dinheiro pode complicar uma amizade, e ninguém deveria assumir compromissos sem pensar em como irá cumpri-los. Ao mesmo tempo, transformar o conselho numa proibição absoluta apagaria a generosidade que tantas relações exigem. Para mim, sua força está no alerta: quando dinheiro e afeto se encontram, clareza e responsabilidade tornam-se ainda mais importantes.
Polônio reserva para o fim a orientação que mais me acompanha: ser fiel a si mesmo. Não entendo isso como fazer sempre o que se quer, nem como recusar opiniões diferentes. Ser fiel a si mesmo exige conhecer os próprios valores, examiná-los e ter coragem de não abandoná-los por medo, interesse ou desejo de aprovação. No trabalho, essa fidelidade pode custar uma vantagem imediata. Na vida, pode exigir uma conversa difícil. Ainda assim, é ela que nos permite olhar para as próprias escolhas sem precisar inventar desculpas.
Há uma beleza especial em ouvir essas palavras dentro de Hamlet. Polônio está longe de ser um personagem infalível, e Shakespeare não nos obriga a concordar com tudo o que ele diz. Talvez por isso a cena continue viva: ela nos convida a pensar, não apenas a obedecer.
O pai dá sua bênção. Laertes parte. O tempo, como Polônio percebe, não espera. Nenhum pai consegue acompanhar um filho por todos os caminhos, nem decidir por ele quando chegar a hora. Pode, porém, oferecer-lhe palavras amadurecidas pela experiência. Depois, resta confiar que o filho saberá fazer delas algo seu.
Nota de edição: Este artigo foi revisto e ampliado com apoio do ChatGPT. As ilustrações foram criadas com o Nano Banana.
Se esta breve cena despertou sua curiosidade, recomendo a leitura de Hamlet por inteiro, em outra tradução. A peça reserva muitas outras passagens capazes de nos acompanhar por anos (clique aqui). Mantive também os comentários recebidos nas publicações anteriores deste post; vale a pena conhecê-los. E, se desejar, deixe sua própria leitura dos conselhos de Polônio nos comentários abaixo.