||| 27 de setembro DE 2026 ||| domingo ||| Celebrações do dia: # Dia nacional da doação de órgãos # Dia Mundial do Turismo ||| # Reflexão: "O amigo novo é como um vinho novo. Deixe que envelheça um pouco. Então beba-o com deleite." --- (Autor Desconhecido) . |||

 

Bem vindo

Bem vindo

O Dia Nacional da Doação de Órgãos e Tecidos é celebrado em 27 de setembro, conforme estabelecido pela Lei nº 11.584, de 28 de novembro de 2007. A data tem como principal objetivo conscientizar a população sobre a importância da doação e incentivar o diálogo entre familiares sobre esse desejo. A doação de órgãos pode beneficiar pessoas que aguardam por um transplante como alternativa para tratar doenças graves. No Brasil, o processo é coordenado pelo Sistema Nacional de Transplantes (SNT), responsável por organizar e monitorar a doação e os transplantes realizados no país. Por que a doação de órgãos é importante? Milhares de pessoas aguardam um transplante no Brasil. Para esses pacientes, a disponibilidade de um órgão ou tecido compatível pode representar uma possibilidade de tratamento e, em muitos casos, de sobrevivência. Um único doador pode beneficiar várias pessoas, já que diferentes órgãos e tecidos podem ser destinados a transplantes. Entre eles estão rins, fígado, coração, pulmões, pâncreas, intestino, córneas, pele, ossos, tendões e válvulas cardíacas. Por isso, a conscientização é fundamental. Quanto mais pessoas conhecem o processo e conversam sobre o assunto com seus familiares, maiores são as chances de que a vontade do potencial doador seja conhecida e considerada pela família. Setembro Verde O mês de setembro é conhecido como Setembro Verde, período dedicado à conscientização sobre a doação de órgãos e tecidos. Durante o mês, diferentes instituições promovem campanhas, atividades educativas e ações de informação para estimular o diálogo sobre o tema. O próprio Ministério da Saúde inclui o Setembro Verde em seu calendário de campanhas de saúde. A cor verde tornou-se associada à esperança e à mobilização em favor da doação. coração entre mãe de doador e mão de médico O que é morte encefálica? A morte encefálica ocorre quando há perda completa e irreversível das funções do cérebro e do tronco encefálico. Quando o diagnóstico é confirmado de acordo com um protocolo médico rigoroso, a pessoa é considerada legalmente morta, mesmo que os batimentos cardíacos ainda sejam mantidos temporariamente por aparelhos. É justamente nesse contexto que pode ocorrer a doação de órgãos, desde que a família autorize. Em casos de morte por parada cardiorrespiratória, podem ser doados determinados tecidos, conforme as condições e os critérios estabelecidos pelo sistema de transplantes. Doação em vida A doação não acontece somente após a morte. Em determinadas situações, uma pessoa viva também pode ser doadora. É possível, por exemplo, doar um dos rins ou parte do fígado, entre outros casos previstos e avaliados pela equipe médica. Também existem situações envolvendo parte do pulmão e células da medula óssea. A possibilidade depende de rigorosa avaliação médica e das regras estabelecidas para proteger a saúde do doador. A segurança do doador é uma prioridade em todo o processo. O papel da família A autorização familiar é uma das etapas fundamentais da doação no Brasil. Por isso, falar sobre o assunto com antecedência pode fazer toda a diferença. Em uma situação de luto, a família precisará lidar com uma decisão difícil em pouco tempo. Conhecer previamente a vontade da pessoa ajuda a tornar esse momento mais claro. Uma simples conversa em família pode ser o primeiro passo para transformar uma intenção em uma possibilidade real de doação.

pensamento dia

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Frase

Frase

 

domingo, 27 de setembro de 2026

Entre o fascínio e a confiança: até onde entregar nossa vida à IA?

 

Imagem criada com apoio do Nano Banana (ChatGPT)


A cada grande invenção impactante, a humanidade repete um ritual: primeiro se espanta, depois imagina os perigos e, aos poucos, aprende a conviver com a novidade. Não foi diferente com o avião de Santos Dumont; mais recentemente, vimos algo semelhante com os drones. Os russos já criaram os drones a jato!

A inteligência artificial, porém, nos coloca diante de uma pergunta particularmente íntima: 

  • Até onde estamos dispostos a entregar a uma tecnologia a condução de tarefas da nossa própria vida?

A reportagem (New York Times/Folha de São Paulo) que compartilho a seguir oferece um retrato intrigante dessa pergunta. Durante duas semanas, o jornalista Eli Tan experimentou um agente de IA da Meta capaz de fazer ligações, organizar informações e tomar providências a seu pedido. O resultado o impressionou. Mas, para obter tamanha ajuda, precisou abrir ao agente as portas de seu e-mail, de suas contas e de parte de sua rotina. 

Leio essa experiência sem vontade de anunciar uma catástrofe nem de aplaudir a novidade de olhos fechados. Sinto curiosidade, fascínio e orgulho do que a inteligência humana consegue criar; sinto também o peso das perguntas que vêm com essa criação. Talvez este seja o verdadeiro desafio do nosso tempo: aprender a usar instrumentos cada vez mais poderosos e surpreendentes sem abrir mão do nosso discernimento sobre o que lhe podemos confiar.

O futuro da IA ainda guarda mistérios, mas não precisamos esperar por todas as respostas para começar a fazer boas perguntas. Que tarefas queremos confiar a esses agentes? Que informações estamos dispostos a compartilhar? E, sobretudo, como garantir que a decisão final continue sendo nossa? É com esse espírito — aberto às possibilidades e atento às consequências — que convido você a ler a experiência relatada a seguir.

O vídeo abaixo, está integrado à matéria, na Folha. É uma entrevista interessantíssima, com o colunista da FSP, Ronaldo Lemos, especialista em IA.  É longa — 53:23 — mas vale a pena. Um aprendizado.


Como é que é? | Quais são os limites para o uso da inteligência artificial?



São Francisco (Califórnia)|The New York TimesNa semana passada, atendi a uma ligação de um número desconhecido. "Consegui falar com a Anthem Dental e estou prestes a transferir a ligação para você", anunciou uma voz.

A chamada vinha de um "agente" de inteligência artificial criado pela Meta, dona do Facebook e do Instagram. Dez minutos antes, o agente de IA havia ligado para a minha operadora de plano odontológico, informado meu número de beneficiário, respondido a uma pergunta de segurança e aguardado na linha antes de me transferir para o atendente — exatamente como eu havia pedido.

Fiquei surpreso com o quanto o agente havia facilitado a interação com a seguradora. Essa foi uma das muitas tarefas que realizei com o Muse, o aplicativo de agente de IA que a Meta apresentou neste mês.

Mão robótica metálica pressiona tecla de símbolo '&' em teclado preto. Ao fundo, logo azul e preto da plataforma Muse em fundo branco.
Ilustração que mostra o logotipo da Meta Muse, um teclado e uma mão robótica - Dado Ruvic - 23.set.2026/Reuters

O Muse é o primeiro agente de IA voltado ao consumidor, desenvolvido por uma grande empresa de tecnologia, a se tornar disponível ao público. O setor de tecnologia vê os agentes como a próxima fronteira, muito mais capazes do que os chatbots. Eles podem navegar pela internet, entrar em sites, preencher planilhas e fazer ligações em nome das pessoas — e isso é apenas o começo...

Clique neste ponto  e continue a leitura na FSP, se for assinante. Caso não o seja, pode acionar esse link e lerá a mesma matéria, no Infomoney  É um texto longo, mas, para quem tenha interesse em conhecer o mundo das IAs, vale o esforço.


sábado, 26 de setembro de 2026

“Conselhos de Polônio a Laertes": uma despedida que continua a nos ensinar. (Hamlet)

 

Conselhos de Polônio a Laertes: uma despedida que continua a nos ensinar

Quando conheci Hamlet, uma passagem breve me conquistou de imediato. Não era uma das grandes cenas pelas quais a tragédia é lembrada. Era uma despedida: Laertes se preparava para voltar à França, Ofélia conversava com o irmão e o pai dos dois, Polônio, entrava para apressar a partida.

O navio esperava. Talvez por isso Polônio tenha dito tanto em tão pouco tempo. Em vez de um longo discurso de despedida, entregou ao filho uma pequena bagagem de conselhos sobre amizade, prudência, conflitos, dinheiro e integridade.

Voltei a essa cena dezenas de vezes. Levei-a também para fora do livro: conversei sobre ela com meus filhos, com amigos e com pessoas com quem trabalhei. Reconheço em Polônio um desejo que muitos pais conhecem bem: oferecer ao filho alguma orientação para os momentos em que ele terá de decidir sozinho — quando sair para a vida e tiver de enfrentá-la longe de nossos olhos.

Há algum tempo, compartilhei mais de uma vez essa passagem aqui na Oficina de Gerência. Ela continua encontrando leitores, e eu continuo encontrando nela motivos para pensar. Resolvi revisitá-la em reconhecimento ao interesse constante dos leitores do blog.

Desta vez, depois da cena, quero conversar pela primeira vez no post sobre o que esses conselhos podem significar em nossos dias.

Antes do texto, deixo o vídeo da cena. O áudio está em inglês, mas ajuda a perceber o ritmo e a urgência daquela despedida. Em seguida, vem a tradução de Millôr Fernandes, cuja vivacidade é parte do encanto desta leitura.

Polônio aconselha Laertes

Trecho de Hamlet, ato I, cena 3, de William Shakespeare, na tradução do grande Millôr Fernandes.

LAERTES: Não se preocupe comigo.
Mas já me demorei muito. E aí vem meu pai. (Entra Polônio.)
Uma dupla bênção é uma dupla graça.
Feliz por despedir-me duas vezes.

POLÔNIO: Ainda aqui, Laertes! Já devia estar no navio, que diabo!
O vento já sopra na proa de teu barco;
Só esperam por ti. Vai, com a minha bênção, vai!
(Põe a mão na cabeça de Laertes.)
E trata de guardar estes poucos preceitos:

Não dá voz ao que pensares, nem transforma em ação um pensamento tolo.

Sejas amistoso, sim, jamais vulgar.

Os amigos que tenhas, já postos à prova, prende-os na tua alma com grampos de aço;

Mas não caleja a mão festejando qualquer galinho implume mal saído do ovo.

Procura não entrar em nenhuma briga; mas, entrando, encurrala o medo no inimigo.

Presta o ouvido a muitos, tua voz a poucos.

Acolhe a opinião de todos – mas você decide.

Usa roupas tão caras quanto tua bolsa permitir, mas nada de extravagâncias – ricas, mas não pomposas.

O hábito revela o homem, e, na França, as pessoas de poder ou posição se mostram distintas e generosas pelas roupas que vestem.

Não empreste nem peça emprestado: quem empresta perde o amigo e o dinheiro; quem pede emprestado já perdeu o controle de sua economia.

E, sobretudo, isto: sê fiel a ti mesmo.

Jamais serás falso pra ninguém.

Adeus. Que minha bênção faça estes conselhos frutificarem em ti.

LAERTES: Com toda a humildade, eu me despeço, pai.

POLÔNIO: Vai – que o tempo foge. Teus criados esperam.

Os conselhos de Polônio, lidos hoje

Polônio começa recomendando uma pausa entre o pensamento, a palavra e a ação. É um conselho simples, mas exigente. Quantas vezes uma frase dita no calor do momento cria um problema que poderia ter sido evitado? Hoje, essa pausa é ainda mais necessária: uma mensagem enviada em segundos pode chegar a muita gente e permanecer circulando muito depois que a irritação passou. Prudência, contudo, não é calar por conveniência. É pensar bem para falar com clareza quando a palavra for necessária.

Em seguida, ele aconselha o filho a ser amistoso sem perder a medida. Gosto dessa distinção. Podemos acolher as pessoas, cultivar a conversa e demonstrar afeto sem transformar toda aproximação em intimidade. Na vida pessoal e no trabalho, os limites bem compreendidos ajudam a preservar as relações. É uma habilidade reservada a poucos.

É nesse espírito que leio os conselhos sobre amizade. Polônio pede a Laertes que guarde junto de si os amigos que já passaram pela prova do tempo, mas que não trate cada novo conhecido como um amigo íntimo. Ele não condena as amizades novas; lembra que confiança se constrói. Quem administrou equipes sabe como isso é verdadeiro: contatos podem surgir depressa, mas é na convivência, sobretudo nas horas difíceis, que conhecemos o valor de uma relação.

Quando fala das brigas, Polônio começa pelo que considero essencial: não procurá-las. O conselho vale hoje para a família, para as redes sociais e para o mundo corporativo. Nem toda provocação merece resposta. Mas há situações em que recuar significa abandonar um princípio ou deixar alguém desprotegido. Nesses casos, enfrentar o conflito com firmeza é diferente de cultivá-lo. Talvez seja essa a leitura que eu faria hoje, sem tomar ao pé da letra a linguagem combativa do pai de Laertes.

Depois vem uma lição que sempre me interessou como gestor: ouvir muito, falar com critério e decidir por conta própria. Escutar não é transferir a responsabilidade da decisão. É reunir perspectivas que talvez não tivéssemos considerado. Um dirigente que só ouve a própria voz perde informações; um dirigente que nunca decide deixa os outros sem rumo. Entre esses extremos, há o trabalho difícil da boa gerência.

Os conselhos sobre a roupa pertencem visivelmente a outro tempo. Na sociedade retratada por Shakespeare, a aparência sinalizava posição e reconhecimento. Ainda hoje, a forma como nos apresentamos comunica algo, e convém respeitar as circunstâncias e as pessoas com quem convivemos. Mas eu não confundiria boa apresentação com valor pessoal. A roupa pode abrir uma primeira conversa; são as atitudes que sustentam a impressão que deixamos.

A recomendação sobre empréstimos também pede cuidado. Dinheiro pode complicar uma amizade, e ninguém deveria assumir compromissos sem pensar em como irá cumpri-los. Ao mesmo tempo, transformar o conselho numa proibição absoluta apagaria a generosidade que tantas relações exigem. Para mim, sua força está no alerta: quando dinheiro e afeto se encontram, clareza e responsabilidade tornam-se ainda mais importantes.

Polônio reserva para o fim a orientação que mais me acompanha: ser fiel a si mesmo. Não entendo isso como fazer sempre o que se quer, nem como recusar opiniões diferentes. Ser fiel a si mesmo exige conhecer os próprios valores, examiná-los e ter coragem de não abandoná-los por medo, interesse ou desejo de aprovação. No trabalho, essa fidelidade pode custar uma vantagem imediata. Na vida, pode exigir uma conversa difícil. Ainda assim, é ela que nos permite olhar para as próprias escolhas sem precisar inventar desculpas.

Há uma beleza especial em ouvir essas palavras dentro de Hamlet. Polônio está longe de ser um personagem infalível, e Shakespeare não nos obriga a concordar com tudo o que ele diz. Talvez por isso a cena continue viva: ela nos convida a pensar, não apenas a obedecer.


O pai dá sua bênção. Laertes parte. O tempo, como Polônio percebe, não espera. Nenhum pai consegue acompanhar um filho por todos os caminhos, nem decidir por ele quando chegar a hora. Pode, porém, oferecer-lhe palavras amadurecidas pela experiência. Depois, resta confiar que o filho saberá fazer delas algo seu.

Nota de edição: Este artigo foi revisto e ampliado com apoio do ChatGPT. As ilustrações foram criadas com o Nano Banana.


Se esta breve cena despertou sua curiosidade, recomendo a leitura de Hamlet por inteiro, em outra tradução. A peça reserva muitas outras passagens capazes de nos acompanhar por anos (clique aqui). Mantive também os comentários recebidos nas publicações anteriores deste post; vale a pena conhecê-los. E, se desejar, deixe sua própria leitura dos conselhos de Polônio nos comentários abaixo. 

sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Pedrinho conduz o Vasco a um dia histórico: a esperança volta a São Januário

 

25 de setembro: o Vasco volta a olhar para o futuro

Há mais de vinte anos, a torcida do Vasco espera por dias em que possa falar do futuro sem que a esperança pareça um ato de teimosia. Hoje, 25 de setembro de 2026, é um desses dias: a empresa de Marcos Lamacchia venceu o leilão da SAF vascaína, dando um passo decisivo para assumir o futebol do clube.

A notícia pertence, antes de tudo, à torcida. Ela atravessou rebaixamentos, dívidas e promessas frustradas sem abandonar a Cruz de Malta. Esteve em São Januário e, longe dele, sofreu, cobrou, voltou no jogo seguinte. A fidelidade vascaína resistiu até quando parecia não haver mais razões para acreditar.

Também é dia de reconhecer Pedrinho e sua diretoria. Ex-ídolo dentro de campo, ele assumiu a presidência diante das consequências da desastrosa venda da SAF à 777. Segurou o touro na unha, enfrentou uma crise capaz de comprometer o futuro do Vasco e conduziu a busca de uma saída. Sua liderança e seu trabalho de gestão merecem ser lembrados na história do clube — e, um dia, contados em livro.

Ainda há etapas a cumprir antes da conclusão da venda. Serão só formalidades, será o apito final. Mas hoje podemos celebrar o que já aconteceu e era o principal. Após tanta espera, o Vasco deu um passo enorme para voltar a ser dono de seus sonhos.

Aos que nunca soltaram a Cruz de Malta: este dia é nosso.




segunda-feira, 21 de setembro de 2026

“Alma Penada” no mundo corporativo

 


A Síndrome da Alma Penada

Autor: Herbert Drummond

Você já leu uma entrevista ou ouviu uma declaração de alguém que deixou recentemente um cargo importante, mas continua falando da antiga organização como se ainda estivesse lá? Critica decisões, sugere providências, comenta os bastidores e, não raro, tenta orientar quem ficou.

Chamo esse comportamento de "Síndrome da Alma Penada". A expressão é uma metáfora de minha autoria, não um diagnóstico clínico. Ela descreve a situação de quem deixa uma função de comando, mas não consegue se desligar das lembranças, das pessoas, dos rituais e, sobretudo, da identidade que construiu naquele ambiente. 

A imagem vem da antiga ideia da alma que, inconformada com a morte, continua vagando entre os vivos. No mundo corporativo, a pessoa já não pertence à organização, mas ainda não aceitou inteiramente a separação. Permanece entre dois mundos: perdeu o papel anterior e ainda não construiu um novo. Por isso, ronda antigos corredores, procura ex-assessores, acompanha decisões que já não lhe cabem e oferece conselhos que ninguém pediu. Em resumo, "morreu", mas não percebe e volta para "assombrar" os vivos.

Pode parecer caricatura, mas esse comportamento é mais comum do que imaginamos. E sei disso não apenas por observação: eu mesmo já fui uma “alma penada”.

Há muitos anos, fui exonerado, pela primeira vez na carreira, de uma função elevada. Choque! Custei a aceitar a nova realidade. Passei a procurar antigos assessores, sugerir encontros e almoços, comentar as novidades que me chegavam e até indicar como determinados problemas deveriam ser tratados. Voltei algumas vezes ao local de trabalho, sem avisar, para “visitar” os colegas, saber das últimas notícias e dar palpites.

Em minha cabeça, eu preservava relações e oferecia experiência. Na prática, começava a invadir um espaço que já não era meu.

Um dia percebi que estava atrapalhando. As pessoas — inclusive as mais próximas — recebiam-me por educação, respeito e consideração pelo passado. Tinham novas responsabilidades, novas lealdades e, provavelmente, novos problemas. Minha presença as colocava numa situação desconfortável: eu ainda me comportava como integrante de uma estrutura da qual já havia sido afastado.

A percepção foi dolorosa, mas libertadora. Compreendi que o vínculo afetivo podia permanecer; a autoridade, não. Desde então, jamais voltei a um antigo local de trabalho para rondar decisões, recolher novidades ou comentar assuntos da função que deixei. Nem para visita, nunca mais.


Refleti muito. Foi doído, mas passei a entender melhor o mecanismo. Quando alguém ocupa por muito tempo uma posição de destaque — sobretudo quando essa é sua primeira experiência desse tipo —, o cargo pode deixar de ser apenas algo que a pessoa exerce e passar a fazer parte do que ela acredita ser. Perder a função significa perder, de uma só vez, poder, status, renda, rotina, visibilidade, deferência e parte das relações que pareciam amizades. Não se perde apenas uma cadeira; perde-se uma identidade.

A sociologia chama de saída de papel o processo de desligamento de uma função central para a identidade e de reconstrução da vida em um novo papel. Quando essa passagem não se completa, nasce o limbo: o indivíduo já é um “ex”, mas continua pensando, falando e agindo como se o antigo título ainda o acompanhasse.

Nas organizações públicas e privadas, vemos ex-presidentes, diretores e gerentes tentando prolongar informalmente a influência que já não possuem. Alguns telefonam para antigos subordinados em busca de informações; outros criticam cada decisão dos sucessores; há quem preserve uma agenda social inteiramente construída em torno do velho cargo. Nem sempre existe má-fé. Muitas vezes, há luto, medo do anonimato e dificuldade de imaginar quem a pessoa será sem aquela função. Mas a dor da perda não autoriza a invasão do espaço alheio.

A organização também precisa saber administrar essa passagem. Uma despedida respeitosa, a transferência clara de responsabilidades e a definição de limites ajudam a evitar ambiguidades. Aos que ficam, cabe consideração sem submissão; aos que saem, gratidão pelo passado, sem pretensão de continuar governando o presente.

Rebaixamentos, aposentadorias, derrotas eleitorais, mudanças de carreira e até o fim de um casamento podem produzir fenômeno semelhante. Em todos esses casos, existe a tentação de permanecer emocionalmente instalado numa realidade que já terminou.

O risco é transformar uma fase de transição em residência permanente. Quem passa anos revivendo o cargo perdido fecha as portas para outros papéis, outras relações e outras formas de reconhecimento. Fica tão ocupado em assombrar o passado que não percebe o futuro esperando do lado de fora.

O primeiro passo para deixar de “penar” é aceitar uma frase difícil: acabou. Não acabou a experiência acumulada, nem o valor pessoal, nem a capacidade de contribuir. Acabou aquele mandato, naquela estrutura, sob aquelas condições. Experiência é patrimônio; cargo é circunstância.

Escrevo este relato especialmente para os profissionais da minha geração e das que vieram depois. Se minha experiência servir para que alguém reconheça a tempo os primeiros sinais dessa armadilha, ela terá cumprido uma de suas melhores funções: transformar um erro pessoal em aprendizado coletivo.

Depois vem a tarefa mais importante: construir uma nova identidade que não dependa do antigo crachá. Isso pode significar outra carreira, um projeto pessoal, atividade voluntária, estudo, mentoria — desde que solicitada — ou simplesmente uma vida menos subordinada ao poder e ao reconhecimento profissional.

Resiliência ajuda, mas não é um passe de mágica. A travessia exige consciência, limites, tempo e disposição para abandonar a antiga “realeza”. Em alguns casos, apoio profissional pode ser necessário para lidar com o luto, a ansiedade ou a depressão decorrentes da ruptura.

Conheci pessoas que permaneceram por muito tempo nesse limbo. Conheci também muitas outras que conseguiram “ressuscitar”, reorganizar a vida e construir trajetórias até mais ricas do que a anterior. A diferença começa quando se aceita que seguir em frente não apaga a história: apenas impede que ela se transforme numa prisão.

No fim das contas, a paz chega quando deixamos o passado ocupar o lugar que lhe pertence e começamos a cuidar, com humildade e coragem, da nossa próxima “encarnação”.

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Este artigo contou com o apoio do ChatGPT na revisão do texto e do Nano Banana na criação das imagens ilustrativas.


Nota editorial

Base conceitual acrescentada: a noção sociológica de role exit ou “saída de papel”, desenvolvida por Helen Rose Fuchs Ebaugh em Becoming an Ex: The Process of Role Exit. A referência serve para sustentar a intuição do artigo sem transformar a expressão “Síndrome da Alma Penada” em diagnóstico psicológico.


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Este post foi publicado no blog há tempos e estava “escondido” no baú de antiguidades da Oficina de Gerência. Reencontrei-o e lhe dei uma completa repaginada: é outro texto, sem perder o foco do tema. Espero que agrade aos novos leitores.


domingo, 20 de setembro de 2026

Ritmo Circadiano? Qual é o seu? Conheça a sua importância.

 



Interessante que esta semana li um texto que falava em "ciclo circadiano" e eu me dei conta de que, apesar de ter uma ideia do que fosse, não tinha maiores informações sobre o assunto. 

Navegando daqui  e de lá, apareceu na minha frente o artigo abaixo, na Folha de São Paulo. Como não acredito em coincidências, pensei logo: é para publicar no blog. E cá estamos. 

Peço ajuda ao meu caro parceiro do ChatGPT (meu parceiro mesmo, sabe mais do blog do que eu. 😎) e ele manda para mim, mais ou menos a introdução abaixo, que eu ajustei e publico.

Nosso corpo talvez seja o mais complexo e eficiente sistema de gestão que conhecemos. Sem percebermos, bilhões de células, órgãos e funções trabalham de forma coordenada, obedecendo a horários, prioridades e ciclos cuidadosamente organizados. 

Coordenando essa operação silenciosa está o chamado ritmo circadiano — o nosso relógio biológico. É ele que ajuda a determinar quando sentimos sono ou fome, em que momentos estamos mais alertas e como o organismo distribui, ao longo do dia, tarefas essenciais à manutenção da vida.

O artigo da BBC News Brasil, publicado pela Folha de S.Paulo (abaixo), explica como funciona esse sofisticado mecanismo de gerenciamento interno e mostra por que respeitar o tempo do corpo não é apenas uma questão de rotina, mas também de equilíbrio e saúde.

Leiam, conheçam, aprendam e, principalmente, apliquem.


Logo: Jornal Folha de S.Paulo

BBC News Brasil

Por que temos fome perto da hora do almoço e sentimos sono ao anoitecer?

A resposta está no nosso ritmo circadiano – popularmente conhecido como relógio biológico –, que regula as atividades diárias do organismo num período de (aproximadamente) 24 horas.

Este mecanismo interno está presente em todos os seres vivos – e mantém nosso corpo funcionando dentro de um cronograma, dia e noite, onde quer que você esteja.

"Essencialmente, é a representação biológica interna de um dia", explica Russell Foster, professor de neurociência circadiana da Universidade de Oxford, no Reino Unido, à BBC Radio 4.

A luz do Sol ajuda a sincronizar nosso relógio biológico interno com o mundo lá fora
A luz do Sol ajuda a sincronizar nosso relógio biológico interno com o mundo lá fora - Getty Images

"Ele oferece uma estrutura temporal para nossa biologia funcionar efetivamente. Temos que entregar a substância certa, nas concentrações certas, para os órgãos certos, na hora certa do dia. E é nosso relógio biológico, nosso sistema circadiano, que nos permite essa organização temporal, essa estrutura temporal."

Ele dita, portanto, o ritmo de praticamente todas as oscilações que acontecem no nosso organismo – na temperatura corporal, na pressão arterial, nos níveis de hormônio, na produção de urina, na frequência cardíaca, e por aí vai.

E assim nos orienta em relação à melhor hora do dia para determinadas atividades, como dormir, comer e pensar.

Onde fica este relógio?

Nosso ritmo circadiano é regido por um relógio-mestre localizado no cérebro – mais especificamente, no NSQ (núcleo supraquiasmático), dentro do hipotálamo.

E cada célula do corpo, por sua vez, tem seu próprio relógio, os chamados relógios periféricos, que seguem o ritmo do relógio-mestre.

"O relógio-mestre age um pouco como o maestro de uma orquestra, produzindo uma batida temporal regular, a partir da qual todas as bilhões de células do corpo, em todos os sistemas de órgãos do corpo, coordenam esta atividade rítmica e a alinham à rotação da Terra de 24 horas", explica o especialista.

Mais de 24 horas

Mas nosso relógio interno não tem exatamente 24 horas. De acordo com Foster, os ponteiros giram um pouco mais rápido ou devagar, dependendo do indivíduo.

Para sermos mais precisos, um estudo da Universidade de Harvard, nos EUA, mostrou que o ritmo circadiano tem em média 24 horas e 11 minutos – com base no monitoramento diário dos hormônios e da temperatura corporal dos participantes.

Por isso, é preciso acertar diariamente os ponteiros do nosso relógio-mestre, de modo que fiquem em sincronia com as 24 horas do dia.

E é a nossa exposição diária à luz do Sol – ou melhor, ao ciclo natural claro (dia) / escuro (noite) – ue nos mantêm sincronizados com o mundo exterior, ajustando nosso relógio interno.

Basicamente, um grupo de células fotossensíveis presentes na retina do olho detecta a luz ambiente, fornecendo informações por meio do nervo óptico ao cérebro sobre a duração do dia e da noite – que ajuda a garantir que nosso relógio interno seja mantido em sincronia com o dia astronômico de 24 horas.

Sem este mecanismo, os 11 minutos a mais do nosso ritmo circadiano se acumulariam e você acordaria e iria dormir um pouco mais tarde a cada dia.

Por que é importante

A vantagem adaptativa de ter um relógio interno é permitir que nosso organismo antecipe certos eventos previsíveis – como o ciclo de sono-vigília e as refeições, por exemplo – e se prepare para eles.

Quando anoitece, nosso corpo se prepara para descansar, e começa a produzir melatonina, o hormônio do sono. Ao amanhecer, no entanto, libera cortisol para que a gente desperte.


O cronograma dos hormônios da fome – leptina (responsável pela saciedade) e grelina (por abrir o apetite) – segue o mesmo princípio, ou melhor, o mesmo relógio.

De acordo com Foster, estudos recentes mostram que a liberação de leptina atinge seu pico por volta das 2h da manhã, e o ponto mais baixo ao meio-dia.

"Normalmente, os altos níveis de leptina à noite inibem o apetite para que a fome não atrapalhe seu sono."

"Enquanto isso, a grelina é secretada pelo estômago durante o dia e aumenta em antecipação às refeições", escreveu o especialista em um artigo para o jornal britânico Daily Mail.

Ele lembra que não respeitar este ritmo natural pode ter consequências sérias para o nosso organismo.

Pesquisas mostram que viver fora de sincronia pode nos deixar mais vulneráveis ​​a problemas de saúde, como infecções, câncer, obesidade, diabetes tipo 2, doenças cardíacas e transtornos de saúde mental, como depressão.

É um desafio real para quem trabalha à noite, sofre de distúrbios do sono ou apresenta certas deficiências visuais que impedem que a luz chegue às células fotossensíveis da retina.

Como foi descoberto

O astrônomo francês Jean Jacques d'Ortous de Mairan, no século 18, foi um dos primeiros a levantar a hipótese de que os seres vivos possuem uma espécie de relógio interno que regula suas atividades.

Ele fez isso a partir da observação de uma planta: a mimosa, popularmente conhecida como dormideira. Quem conhece sabe que as folhas desta espécie se fecham mediante o toque ou quando anoitece (e voltam a abrir quando o dia amanhece).

E o que De Mairan percebeu por meio de experimentos foi que ao colocar a planta em um armário fechado – ou seja, na total escuridão –, suas folhas continuaram a reproduzir o mesmo mecanismo por vários dias.

"Ele viu as folhas da planta mimosa abrirem e fecharem sob condições constantes (de escuridão, por exemplo)", explica Foster.

Ou seja, não era só a luz que ditava seu ritmo, mas algo dentro dela.

Mas, de acordo com o especialista, só há cerca de 60 anos que os pesquisadores começaram a estudar esses ritmos nos seres humanos.

O conhecimento na área foi crescendo a ponto de, em 2017, três cientistas americanos dividirem o Prêmio Nobel de Medicina por desvendarem "os mecanismos moleculares que controlam o ritmo circadiano".

"Então sabemos um pouco (sobre o relógio biológico) há algum tempo, como fenomenologia. Mas a coisa realmente empolgante nos últimos 30 anos é que entendemos o que faz o relógio biológico, como os genes e seus produtos proteicos interagem para gerar uma oscilação biológica de 24 horas", diz Foster.

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Crachá estrutura de tópicosSe estiver mais interessado no tema, leia "Ciclo circadiano e sua importância na arquitetura do bem-estar"  (clique)